Quando
ouvi um barulho incomum, saí à janela da sacada e olhei para baixo, quase não
havia sobrado uma folha, os galhos estavam nus e havia uma enorme pilha de
restos no chão. Curiosa, perguntei o porquê daquilo, a primavera estava
próxima, ela não iria mais florir por causa daquilo?
Aquele
período de agosto, conforme me explicou, representa o auge da dormência das
plantas, elas não sentem dor ao ser podadas e ganham força e liberdade para
vicejar e florir no início da primavera. Eu podia ficar tranquila, ele me
disse, a florada seria linda.
Menos
de um mês depois, a planta ganhara galhos novos e avermelhados, na semana
seguinte, os galhos tornaram-se verdes e já era possível avistar os pequenos
botões que cresciam silenciosamente. Um dia, sem nenhum aviso, a roseira estava
em flor, linda, iluminada e fresca.
Estamos
em dezembro e desde então pude notar pelo menos três floradas diferentes. Nesse
exato momento em que escrevo, três rosas completamente novas compartilham
espaço com pelo menos seis rosas que se despetalam ao sabor do vento e da garoa
que cai. Quando a última pétala cai, as sementes ficam expostas, caem ao pé da
planta ou são carregados para longe numa tentativa de voltar a fecundar a
terra.
Se
você passar por aqui um dia, pode ter o prazer de levar para casa um pote
daqueles de sorvete com uma muda de roseira, cuidadosamente separada pelo
Sandoval, além de constatar com os próprios olhos que nenhuma rosa é um
cadáver. Nada em seu despetalar tem parentesco com a morte. Afinal, alertou-nos
Cecília Meireles, “também é ser deixar de ser assim”.
Cumprido
o ciclo do broto, a rosa se apresenta para o seu turno, quando é rendida pelo
tempo e pelo vento, volta para a casa, que é a terra, a mesma da qual nós, você
e eu, viemos. Uma parte de si se precipita para fertilizar o solo, a outra
espera o tempo de germinar e, então, voltar para casa. Ambas as partes
continuam sendo vida, ambas continuam vivas.
O que
a rosa é, é o que nós somos. O que a roseira representa para ela é o que nossa
linhagem familiar representa para nós. Como embriões, permanecemos atados à
nossa mãe, até que brotamos e cumprimos nosso ciclo como crianças-rosas que
permanecem ligadas à grande planta que é nossa família. Quando, já adultos,
nossas pétalas estão prontas para soltar-se, partes de nós vão sendo carregadas
em cada escolha, em cada partida, em cada novo projeto, em cada amor, em cada
perda.
Um
dia, esse ciclo chegará ao fim, muitos de nós deixarão sementes em forma de
filhos queridos, que podem ser biológicos ou mesmo imateriais e estaremos
prontos para fertilizar a terra, na qual nossas sementes irão prosperar. Um
dia, pode ser que sejamos outra rosa em outro tempo, em outro vento.
Esse
conhecimento pertencia à semente que fomos antes mesmo desse momento. Acontece
que no auge da nossa dormência, fomos podados e nossa sabedoria profunda foi
obliterada. Passamos a acreditar em cadáveres e adquirimos um medo pavoroso de
fertilizar a terra.
Aqueles
que seguravam as tesouras com que fomos podados ofereceram-nos uma saída de
mestre: entregue-nos suas vidas agora, que entregaremos uma vida ainda melhor
para vocês depois dessa. Ora, diante do que tínhamos (mero esquecimento),
parecia-nos uma ótima solução. Sabemos fazer isso, é o mesmo que fazemos em
caso de assalto: não esboce reação, não diga palavra que não seja sim, entregue
tudo que tiver, inclui-se aí a dignidade.
Se
rezarmos de acordo com essa cartilha, essa vida que nos parece tão cruel e
injusta será substituída por uma vida futura de abundância, alegria e
fraternidade, lá do outro lado. Mas, espera aí, talvez as coisas não sejam
assim de verdade, talvez possamos simplesmente ser fraternos agora mesmo e
partilhar o que a terra nos dá com alegria aqui, sem esperar por um depois. Olha,
agradecemos sua oferta, mas vamos ficar assim mesmo.
Então,
aqueles com as tesouras nos informaram que isso não seria possível, que a terra
só dava frutos àqueles que trabalhavam segundo as diretrizes já informadas.
Além disso, não existia tal coisa como recusar a oferta, afinal, a única
alternativa possível era virar adubo nas profundezas da terra do enxofre, um
lugar quente, mal cheiroso e repleto de castigos eternos. Pegar ou largar.
Pegamos.
E mesmo aqueles entre nós que não pegaram complemente, são afetados de algum
modo pelo medo ou pela culpa coletivos que carregamos nas costas como um fardo
ingrato que nos impede de aceitar a responsabilidade de transformar aqui e
agora.
Antes as religiões nos acorrentavam ao medo
da perda do amor de um Deus iracundo, que nos manteria à margem da vida idílica
com a qual sonhávamos. Na dúvida entre isso ou aquilo, tínhamos os homens das
tesouras para nos orientar e insuflar a culpa caso ousássemos apontar uma
injustiça.
Então,
veio a “nova era” e com ela a promessa de uma vida boa e prazerosa aqui e
agora. Então eles nos dizem “Ei, babe, don’t worry, God loves you”. Não há mais
o que temer, não é preciso fazer nada para obter o amor de Deus, afinal, o amor
é tudo o que há. “Não dê ouvidos aos homens das tesouras, eles são tristes e
rancorosos”, o que você precisa é de boa vibração, bons pensamentos.
Eis o
grande segredo que a boa nova nos revelou: afaste-se de tudo o que for
negativo, tenha apenas pensamentos de prosperidade e abundância, não envolva-se
em discussões nem observe injustiças, lembre-se, tudo aquilo o que você
observa, você inclui na sua vibração. Seja bom consigo mesmo e tire uma folga
de todas as pessoas que têm algo de que reclamar, não assista aos noticiários,
eles estão cheios de más notícias, não se envolva com política, você é seu
governo, faça apenas o que tem vontade e não se preocupe com os demais, cada um
é responsável pela própria vibração.
Você
quer, você mentaliza, você consegue. Simple that. Se nada disso estiver
funcionando para você, não tenha vergonha de voltar aos primeiros passos. A lei
da atração funciona cem por cento das vezes, se não está funcionando, você deve
estar fazendo algo errado. Não se preocupe, meu querido, o Tudo que é ama você
de todo jeito. Se nada disso funcionar, tente o empreendedorismo. Ah, e não se
esqueça de deixar as coisas como estão. Namastê.
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