Talvez
porque a lógica que sustente essa ideia seja praticamente onipresente em nossa
cultura, para a qual novo é sinônimo de bom ao passo que velho invariavelmente
ganha contornos de obsoleto, ultrapassado e até mesmo inútil. Mal chega
novembro e as timelines, que são nossas novas memórias de curto prazo, começam
a pipocar de pedidos para que o ano corrente acabe logo.
Desejo
que vem acompanhado da promessa de um novo ano cheio de realizações e
conquistas, que a bem da verdade não se concretizaram no ano que finda lenta e
silenciosamente. No fundo, sabemos que o homicídio dos nossos projetos é
culposo, o ano jamais tem intenção de matá-los, nem poderia. Do mesmo modo, sabemos
que a intenção por si só nada muda, por isso inventamos as resoluções.
A
vida é orgânica e cíclica, não linear como os calendários gostariam de nos
convencer. Parar de fumar, perder alguns quilos, voltar a se dedicar a uma
atividade que nos dava prazer ou simplesmente encontrar mais tempo para si não dependem
em absoluto dos números de um a 31 impressos numa grade. Essas aspirações só se
concretizam quando vivenciamos o final de um ciclo, normalmente porque deixamos
de precisar disso ou daquilo e já estamos livres para uma nova etapa.
Há
anos desejava parar de fumar, hábito que eu cultivava desde os 11 anos de
idade, o que por si só é um absurdo, mas nem essa constatação me ajudava a
conseguir. Era tomar uma xícara de café ao longo do dia ou sair com os amigos e
dar um ou dois goles de cerveja e o cigarro parecia se materializar aceso na
minha mão. Entre idas e voltas, descobri que não conseguiria parar se não
mudasse todos os hábitos relacionados ao tabagismo e fiz, mesmo que isso tenha
me custado algumas amizades.
Dois
ou três anos atrás, fiz uma lista de coisas que gostaria de lembrar ao longo do
ano, que incluía coisas como “eu não tenho o poder de adivinhar o que as
pessoas pensam”, “o certo e o errado são somente construções históricas”, “ninguém
é melhor que ninguém, apenas temos características e trajetórias diferentes” e
coisas nesse sentido. Funcionou bem, tanto que nos anos seguintes não voltei a
pensar no assunto.
Este
ano, porém, o assunto voltou a ganhar minha atenção, como sempre, por pura necessidade.
Estive muito sensível a algumas questões nos últimos meses, o que atribuo a uma
combinação de chegada à casa dos 30 com eventos políticos, econômicos e
sobretudo ambientais inquietantes, além do ápice de uma crise vocacional que
vinha me acompanhando desde dos 27. Em tudo os últimos anos se assemelharam aos
anos finais da minha adolescência.
Um
sentimento de revolta me assolou com uma intensidade tão violenta que baqueei.
Acordei, semanas atrás, com a nítida sensação de ter deitado fora tudo de bom
que aprendi, dos ensinamentos espirituais aos avanços terapêuticos. Senti minha
energia vital ser reduzida drasticamente e passei a me debater com as dores
crônicas que me colocaram prostrada num passado ainda bastante recente.
Como
tudo tivesse sido levado a um estado crítico demais e sabendo que o ano cheio
que me espera não será condescendente com minha fragilidade, resolvi adotar uma
resolução de ano novo. Resolução, aliás, vem do latim resolutionis, que é
sinônimo de desatar, libertar. Exatamente o que buscava.
Acabei
me dando conta de que tenho gastado muita energia me certificando de estar do
lado certo, de ter o discurso certo contra quem oprime, de ter a atitude certa
num mundo desigual e injusto. Essa necessidade compulsiva de ajudar o outro, de
salvá-lo de supostas armadilhas, de bradar contra o que é ético, justo e até
mesmo cristão tem me cegado para o fato de que isso diz mais sobre mim que
sobre o outro.
Ninguém
foi suficientemente injustiçado se não pode dizê-lo por espontânea vontade.
Ninguém foi suficientemente agredido em sua honra se não puder, ele mesmo,
gritar para restitui-la. Considerar o outro incapaz de dar voz e sentido a suas
próprias dores é o oposto de oferecer auxílio, é arrogância disfarçada de altruísmo,
falsa vocação para mártir, coisa que não sou.
Não,
não significa que eu tenha desisto do ideal que me move, nem que eu vá me
conformar com o mundo “tal como ele é”, se isso, é claro, significar
vilipendiado por uma horda de abutres que usam a ideia de Deus para manter-nos
escravos de um sistema falido que só beneficia aqueles cujo sangue coincide com
o seus.
A
primavera me ensinou a não me ocupar em fazer o trabalho do vento, ele nunca
falha em sua atribuição. Basta que eu use a minha voz para falar do que me
aflige e meus ouvidos para escutar o que aflige meus irmãos. O mal não precisa
de mais nenhuma ajuda para propagar-se, ele não precisa do meu brado retumbante.
Enquanto
deixava a ira e a revolta tomarem conta do meu ser no que julgava serem boas
causas, minha energia e minha capacidade de agir iam ralo abaixo. Por isso, vou
adotar a velha e boa tática da resolução de ano novo para fazer o que Madre
Teresa já havia ensinado, lutar em favor daquilo o que desejo ver, não contra
aquilo o que desejaria já ter sido extinto.
Pelo
mundo afora existem milhões de pessoas que acreditam nas mesmas causas e agem
positivamente, com leveza e bom-humor em prol de suas causas. Gente com energia
para se organizar e agir construtivamente, gente capaz de apontar soluções em
vez de problemas. É para elas que eu vou em 2015, porque o que muda mesmo é a
folhinha pendurada atrás da porta da cozinha. A gente, quando tem coragem, se
reinventa.
Feliz
ano novo e obrigada por ser gentil.
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