A tática é antiga, com um discurso raso que resume a luta
por direitos humanos à defesa de bandidos, que segundo o próprio “está na boca
do povo”, ele catalisa uma expressiva parcela da sociedade sob a aura de um homem
de brio e coragem. Com seu ato de bravura, ele fala em alto e bom som aquilo
que o dito cidadão de bem quer dizer, mas não pode, porque se sente vigiado
pela patrulha do politicamente correto, como se defender a dignidade humana
fosse sinônimo de acoitar.
Por trás de seu ideário está a mítica do homem que trabalha
duro para oferecer à família o mínimo de conforto, mas é lesado pela omissão do
Estado e pelo insistente – e imaginário – privilégio concedido a bandidos,
minorias e às pessoas em geral que se beneficiam de algum subsídio governamental,
a quem eles chamam despudoradamente vagabundos. O que o cidadão que faz coro aos
Bolsonaros da vida não fala ou talvez simplesmente ignore é que esses que ele enxovalha
não são causa, mas consequência do discurso que propagam aqueles que defendem
com unhas e dentes a família no Congresso.
Acontece que a família que pessoas como Bolsonaro defende
não se parece nem de longe com um núcleo de indivíduos organizado de modo a apoiar-se e proteger-se mutuamente, garantindo entre si o direito à própria identidade e fortalecendo seus vínculos (não exclusivamente consanguíneos) e ideais de pertencimento através do amor, da aceitação e da disponibilidade para ensinar e aprender.
Não, a família que pessoas como Bolsonaro defende é uma
entidade avalizada pelo matrimônio, com a finalidade específica de procriar e preservar
patrimônio, que legitima como cidadão exclusivamente aqueles de orientação heterossexual
e aptos para a perpetuação desse mesmo modelo. Nesse tipo de instituição, os
filhos não são indivíduos que nascem livres, dotados de consciência e que devem
dirigir-se aos outros com espírito de fraternidade, como assegura a
constituição de 1988, mas são, antes, extensão do patrimônio da “família”,
propriedade privada.
Para ser considerados dignos de afeição e respeito, os
filhos devem adaptar-se completamente às expectativas de seus progenitores, sob
pena de castigos físicos e psicológicos, entram aí alienação, privação de
afeto, palmadas, tapas, socos e cárcere privado, de acordo com a gravidade do “delito”
que cometer. E não se engane quanto à natureza desses delitos, opiniões
divergentes, amizades não aprovadas, orientação sexual diversa, escolhas
profissionais e de lazer previamente condenadas são a natureza primária deles.
Para pessoas como o execrável parlamentar, o diálogo, a
compreensão e o afeto não servem como instrumento de educação, ainda em
contrário, oferecem risco de estragar o sujeito. Sim, sujeito, já que no seio
da família de bem não existem indivíduos com destinos particulares, apenas
seres humanos submetidos a doutrinação e ritos de passagem que garantam sua
entrada e permanência segura no círculo dos de bem.
Insisto no termo de bem e o faço para que fique
perfeitamente claro que neste caso a palavra bem nada tem a ver com aquilo o
que enseja o progresso, o equilíbrio ou o aperfeiçoamento de uma pessoa ou
coletividade, esse tipo de bem carece de compreensão, diálogo e, no mínimo,
espírito fraterno. O substrato que a família de bem defende é aquele verbete
utilizado no domínio da economia e como tal, deve ser defendido de forma
metódica, impessoal e se necessário belicosa.
Toda conduta desviada do padrão que
acumula e defende a propriedade privada a qualquer custo é delinquente, marginal
e espúria. O que fazer com mulheres com as quais esses tipos não se casariam?
Estuprar para aprenderem o que é bom! O que fazer com gays, que não servem ao
propósito da família? Espancar até virar homem! O que fazer com negros? Não
deixar que saiam da senzala e ao menor sinal de indisciplina, chicote neles! E
o que fazer com pessoas de orientação política diversa? Ora, essa também é
fácil, F-U-Z-I-L-A-R!
No seio da família de bem, o amor genuíno, aquele que
compreende e respeita o outro, é substituído pela aprovação, que vem em
espasmos, de acordo com aquilo que se espera em termos de atitude a cada
momento. Essa receita infalível para criar neuróticos, a despeito do que possa
parecer, não é uma fatalidade, mas um artifício cuidadosamente elaborado pela
família burguesa. Sujeitos neuróticos estão em permanente conflito, apartados
de seu eu profundo (self), são exclusivamente orientados pelo desejo de
agradar, o que serve muito bem à nossa organização social.
Seria um alento poder adotar uma postura de superioridade e
simplesmente ignorar tipos como esse, infelizmente , isso não é possível. O
efeito de ter pessoas mentalmente doentes na política e amplamente pautados na
mídia é o de perpetrar a doença como um meio não somente seguro, mas correto de
conduta, falando apenas em seu poder de propagação. Acima de tudo, porém, está
o fato de que pessoas nessa condição estão se lixando para o povo. Aqui e ali,
indivíduos e coletivos se articulam para clamar por sua cassação e até por sua
prisão. Amigos, quando um idiota brada, ele geralmente tem uma carta na manga.
Sabe aquela vez que você ou um conhecido foi assaltado, mas
não viu a arma do bandido, entregou o que tinha apenas na base da ameaça? A
motivação é sempre a mesma: ele provavelmente estava armado. Pois bem, o que
esse senhor faz tem o mesmo funcionamento. Na segurança de que nada irá
acontecer, ele e suas ideias ganharam a mídia. Se o adversário não pode
calá-lo, então ele ganhou o debate e o efeito disso é ter outros tantos milhões
justificados em sua insanidade crônica de que o diferente deve ser eliminado.
Dentro dessa lógica, nega-se a realidade de que somos seres
sexuais, tanto homens quanto mulheres, pra que fique bem claro, que buscam o
prazer na intimidade e companhia do outro. Nega-se veementemente que uma pessoa
possa escolher livremente seu destino através do estudo e do trabalho. Negam-se
os direitos humanos e civis e a possibilidade de uma sociedade justa e
igualitária. Se você nasceu mulher, eles dizem, deve se dar ao respeito (o que
significa muita coisa, mas principalmente que você não deve sonhar com a
possibilidade de desfrutar do prazer que muitos deles pagam para obter na surdina).
Se nasceu homem, deve encontrar uma mulher para casar e procriar. Se nasceu
pobre, negro ou os dois, deve conformar-se com sua posição histórica de
servidão e subserviência. Se nasceu com ímpetos de igualdade, bom, então você
devia estar lendo este texto diretamente da ilha de Fidel.
Se não concorda com as opiniões deles, isso é absolutamente
irrelevante, já que você deve ser puta, pobre, preto, bicha ou apenas mais um idiota
comunista. De todo modo, não se engane, existe um Bolsonaro dentro de cada um
de nós implorando para fuzilar o inimigo. É ele que te manda calar diante de
uma injustiça, que te faz pensar mesmo que por um segundo que o melhor é deixar
a ética de lado e justificar os fins pelos meios, é ele que te diz que política
é lugar de gente corrupta e inescrupulosa e é ele que te embala o sono com a
promessa de que nada nunca vai mudar.
Boa noite e boa sorte.
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