quinta-feira

Somos milhões de Bolsonaros

A tática é antiga, com um discurso raso que resume a luta por direitos humanos à defesa de bandidos, que segundo o próprio “está na boca do povo”, ele catalisa uma expressiva parcela da sociedade sob a aura de um homem de brio e coragem. Com seu ato de bravura, ele fala em alto e bom som aquilo que o dito cidadão de bem quer dizer, mas não pode, porque se sente vigiado pela patrulha do politicamente correto, como se defender a dignidade humana fosse sinônimo de acoitar.

Por trás de seu ideário está a mítica do homem que trabalha duro para oferecer à família o mínimo de conforto, mas é lesado pela omissão do Estado e pelo insistente – e imaginário – privilégio concedido a bandidos, minorias e às pessoas em geral que se beneficiam de algum subsídio governamental, a quem eles chamam despudoradamente vagabundos. O que o cidadão que faz coro aos Bolsonaros da vida não fala ou talvez simplesmente ignore é que esses que ele enxovalha não são causa, mas consequência do discurso que propagam aqueles que defendem com unhas e dentes a família no Congresso.

Acontece que a família que pessoas como Bolsonaro defende não se parece nem de longe com um núcleo de indivíduos organizado de modo a apoiar-se e proteger-se mutuamente, garantindo entre si o direito à própria identidade e fortalecendo seus vínculos (não exclusivamente consanguíneos) e ideais de pertencimento através do amor, da aceitação e da disponibilidade para ensinar e aprender.

Não, a família que pessoas como Bolsonaro defende é uma entidade avalizada pelo matrimônio, com a finalidade específica de procriar e preservar patrimônio, que legitima como cidadão exclusivamente aqueles de orientação heterossexual e aptos para a perpetuação desse mesmo modelo. Nesse tipo de instituição, os filhos não são indivíduos que nascem livres, dotados de consciência e que devem dirigir-se aos outros com espírito de fraternidade, como assegura a constituição de 1988, mas são, antes, extensão do patrimônio da “família”, propriedade privada.

Para ser considerados dignos de afeição e respeito, os filhos devem adaptar-se completamente às expectativas de seus progenitores, sob pena de castigos físicos e psicológicos, entram aí alienação, privação de afeto, palmadas, tapas, socos e cárcere privado, de acordo com a gravidade do “delito” que cometer. E não se engane quanto à natureza desses delitos, opiniões divergentes, amizades não aprovadas, orientação sexual diversa, escolhas profissionais e de lazer previamente condenadas são a natureza primária deles.

Para pessoas como o execrável parlamentar, o diálogo, a compreensão e o afeto não servem como instrumento de educação, ainda em contrário, oferecem risco de estragar o sujeito. Sim, sujeito, já que no seio da família de bem não existem indivíduos com destinos particulares, apenas seres humanos submetidos a doutrinação e ritos de passagem que garantam sua entrada e permanência segura no círculo dos de bem.
Insisto no termo de bem e o faço para que fique perfeitamente claro que neste caso a palavra bem nada tem a ver com aquilo o que enseja o progresso, o equilíbrio ou o aperfeiçoamento de uma pessoa ou coletividade, esse tipo de bem carece de compreensão, diálogo e, no mínimo, espírito fraterno. O substrato que a família de bem defende é aquele verbete utilizado no domínio da economia e como tal, deve ser defendido de forma metódica, impessoal e se necessário belicosa.

Toda conduta desviada do padrão que acumula e defende a propriedade privada a qualquer custo é delinquente, marginal e espúria. O que fazer com mulheres com as quais esses tipos não se casariam? Estuprar para aprenderem o que é bom! O que fazer com gays, que não servem ao propósito da família? Espancar até virar homem! O que fazer com negros? Não deixar que saiam da senzala e ao menor sinal de indisciplina, chicote neles! E o que fazer com pessoas de orientação política diversa? Ora, essa também é fácil, F-U-Z-I-L-A-R!

No seio da família de bem, o amor genuíno, aquele que compreende e respeita o outro, é substituído pela aprovação, que vem em espasmos, de acordo com aquilo que se espera em termos de atitude a cada momento. Essa receita infalível para criar neuróticos, a despeito do que possa parecer, não é uma fatalidade, mas um artifício cuidadosamente elaborado pela família burguesa. Sujeitos neuróticos estão em permanente conflito, apartados de seu eu profundo (self), são exclusivamente orientados pelo desejo de agradar, o que serve muito bem à nossa organização social.

Seria um alento poder adotar uma postura de superioridade e simplesmente ignorar tipos como esse, infelizmente , isso não é possível. O efeito de ter pessoas mentalmente doentes na política e amplamente pautados na mídia é o de perpetrar a doença como um meio não somente seguro, mas correto de conduta, falando apenas em seu poder de propagação. Acima de tudo, porém, está o fato de que pessoas nessa condição estão se lixando para o povo. Aqui e ali, indivíduos e coletivos se articulam para clamar por sua cassação e até por sua prisão. Amigos, quando um idiota brada, ele geralmente tem uma carta na manga.

Sabe aquela vez que você ou um conhecido foi assaltado, mas não viu a arma do bandido, entregou o que tinha apenas na base da ameaça? A motivação é sempre a mesma: ele provavelmente estava armado. Pois bem, o que esse senhor faz tem o mesmo funcionamento. Na segurança de que nada irá acontecer, ele e suas ideias ganharam a mídia. Se o adversário não pode calá-lo, então ele ganhou o debate e o efeito disso é ter outros tantos milhões justificados em sua insanidade crônica de que o diferente deve ser eliminado.

Dentro dessa lógica, nega-se a realidade de que somos seres sexuais, tanto homens quanto mulheres, pra que fique bem claro, que buscam o prazer na intimidade e companhia do outro. Nega-se veementemente que uma pessoa possa escolher livremente seu destino através do estudo e do trabalho. Negam-se os direitos humanos e civis e a possibilidade de uma sociedade justa e igualitária. Se você nasceu mulher, eles dizem, deve se dar ao respeito (o que significa muita coisa, mas principalmente que você não deve sonhar com a possibilidade de desfrutar do prazer que muitos deles pagam para obter na surdina). Se nasceu homem, deve encontrar uma mulher para casar e procriar. Se nasceu pobre, negro ou os dois, deve conformar-se com sua posição histórica de servidão e subserviência. Se nasceu com ímpetos de igualdade, bom, então você devia estar lendo este texto diretamente da ilha de Fidel.

Se não concorda com as opiniões deles, isso é absolutamente irrelevante, já que você deve ser puta, pobre, preto, bicha ou apenas mais um idiota comunista. De todo modo, não se engane, existe um Bolsonaro dentro de cada um de nós implorando para fuzilar o inimigo. É ele que te manda calar diante de uma injustiça, que te faz pensar mesmo que por um segundo que o melhor é deixar a ética de lado e justificar os fins pelos meios, é ele que te diz que política é lugar de gente corrupta e inescrupulosa e é ele que te embala o sono com a promessa de que nada nunca vai mudar.


Boa noite e boa sorte.

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