terça-feira

Derrota nos campos

É bem possível que em português correto, o título devesse estar no singular. Então já fica adiantado que o Brasil perde em mais de um campo. Tem, aliás, perdido em diversos campos há tempos. E que inveja da goleada que tomamos da seleção alemã! Memória quase afetiva de controlar a situação de modo tão positivo, de ganhar os olhos do mundo sob o jugo da habilidade, do saber fazer e do saber fazer melhor.

Difícil encontrar um brasileiro nos dias de hoje que não sinta saudade do trabalho. Trabalho de verdade, no sentido da entrega ao labor, ao suor, ao cansaço alegre e ao descanso merecido. A sensação do dever cumprido abandonou-nos. Pudera, estamos sem moral, ou como se diz na crônica futebolística, com o moral abalado.

É fácil encontrar os indícios - e que enervantes são eles! - você tenta passar as compras no caixa do supermercado e aquilo é uma coisa importante, já que tem a ver com a sua sobrevivência e o operador do caixa conversa despreocupada e inescrupulosamente com um colega. Você tenta pagar uma conta no guichê do banco e é recepcionado por uma atendente sofrendo os efeitos de uma crise amorosa, sem sorrisos para você hoje. Poderia transformar esta crônica numa lista de queixas e resmungos, mas este não é o objetivo.

Tudo isso passamos corriqueiramente e já nos acostumamos até mesmo com as desordens no sono e no traço sutil de culpa que nos acompanha, já que também levamos para o ambiente de trabalho as desordens emocionais e para  os relacionamentos os conflitos hierárquicos. O que deixamos de ver,  contudo, é que também a política está impregnada dessa desagradável tendência de relaxar no conhecido.

O resultado é a desigualdade social atingir um pico que nos leva a todos ao limite da sanidade. A frustração custa caríssimo aos cofres públicos. A sanha do ego pela lavagem da honra desmoralizada é inquietante, desconcertante, indecente mesmo. Nos diversos campos da nossa nacionalidade estamos descobertos. A educação pede misericórdia, a saúde pede socorro, o empreendedorismo pede esmolas e essa lista se tornaria um poema concreto.

Não sabemos lidar com nossa identidade nacional e não somos cães vira-lata, tampouco somos o herói prateado ou a matrona alinhada que mantém o controle de tudo como uma governanta francesa. Nosso indígena figura numa data oficial do calendário, abençoa jogador de futebol estrangeiro, tem sua terra e seu direito restringidos pela ignorância e despreparo ancestral sobre as questões da terra como um organismo vivo independente e superior ao ser humano.

O homem que trabalha a terra se retira para cada vez mais longe de sua origem, fugindo amargurado de um processo industrial que sobrepuja até mesmo o ciclo sagrado do solo. O trabalhador da cidade não dá conta do trajeto cada dia mais insano que o leva aos extremos mais indelicados da cidade em meios de transporte que melhor serviriam a gado, ou melhor, a carcaças. Muitos já tornaram-se incapazes de manter os aluguéis em dia, perambulam e dormem pelas ruas.

O alcoolismo, traço inequívoco da perda de identidade , já não escolhe perfil antropológico. A lógica que rege as relações de trabalho não para de dar mostras de fragilidade. A  identidade de gênero está enlamaçada de ignorância e repúdio à verdade. O discurso médio impregnado de achismos e direito à livre crença, inclusive a crença na completa escuridão com amparo do estado.

O caldo disso é a tendência crescente de acreditarmos no dinheiro como o arauto que instaura em  nossas vidas o império da liberdade. Esquecemo-nos, mesmo etimologicamente, da importância da saúde na percepção geral de bem-estar humano. Não que o dinheiro não configure em si mesmo uma necessidade do convívio humano, apesar disso, a ciência hoje comprova o que o ideal religioso já professava: não é preciso ter mais que o suficiente, pelo menos no sentido de que a percepção de felicidade não será influenciada por esse dado.

A idolatria por trás dessa conduta configura vício semelhante a qualquer outro. Além disso é falível como toda tentativa de preenchimento existencial por via externa a si. Quando o vício impõe, o trabalho torna-se escasso e assim se instaura o declínio. Um indivíduo que não consegue distinguir entre seu tempo à porção destinada ao trabalho, à entrega de uma vantagem de modo integral, atenção não dividida sobre a tarefa, é incapaz de apreciar o descanso e o lazer. Fica escravo do estresse, das doenças crônicas, dos dilemas e situações mal resolvidas.

Aprender o valor do calar é tão importante quanto encontrar voz para dialogar ou protestar contra uma injustiça. Reconhecer a virtude do trabalho silencioso, que diferente das ações na surdina, procura o bem-estar comum sem alardes ou pavoneios, sem excessivos investimentos em propagandas e anúncios solenes, esta é uma virtude que apenas o trabalho pode ensinar.


Ter a seleção brasileira derrotada numa semifinal de campeonato mundial não deve se transformar em nada maior que um item numa extensa lista, que agora inclui também o descaso com o esporte e o estímulo ao exercício físico como fonte de bem-estar individual. O resto são cartazes na manifestação mais próxima de você.